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o narrador

Jul. 5th, 2006

11:08 pm - e que golaço!

passou a bola pro meia-direita e gritou, devolve. recebeu, perto da linha de fundo. vai cruzar, é o que todo mundo pensa, sempre. não cruzou. cortou pra dentro, conseguiu algum ângulo pra chutar, mesmo que de pé esquerdo. foda-se. desceu o cacete na bola e ela entrou no ângulo, raspando a trave. um golaço, que todos os outros dez espectadores favoráveis ao seu time - o resto dele - aplaudiram com fervor. uma pena que não tivesse sido num maracanã lotado, com certeza entraria pros gols mais bonitos da rodada, quiçá do ano. mas ele sabia que era assim, futebol de várzea, de verdade, não tem torcida, quase nunca. nem arquibancada tem, muitas vezes. sem falar do uniforme, cada meião de uma cor, um azul, outro preto, o goleiro sem luvas. pra que tudo isso? era tanta parafernália naqueles jogos do futebol profissional que ele não suportava nem pensar em uma câmera ali filmando, nem que fosse daquelas super-8 antigas. quem tinha visto o golaço tinha, quem não tinha, nunca mais.

era assim todo sábado. quer dizer, ele não fazia gol sempre, muito menos golaço, que lateral-direito só de vez em quando tem uma chance de marcar. mas todo sábado ele saia de casa carregando o jogo de camisas pra encontrar os outros dez, que quase nunca eram os mesmos, e ir pra algum campinho de várzea dos que ainda existiam na cidade. na verdade, imaginava, essa coisa de dizer que os campinhos sumiram não é assim tão verdade, as pessoas que não procuram mais direito. em dois meses eles já tinham conhecido cinco diferentes, só ali pelo bairro. vai ver ninguém tem mais tempo pra jogar bola, pensou, e também todos esses prédios e carros, condomínios privados, a molecada vive agora é no cimento, futebol de salão. isso quando não prefere gastar o tempo que tem vendo jogo pela TV, desses profissionais. algo que ele não entendia. os narradores eram ruins, cegos, burros. os comentaristas mais pareciam gravadores, repetiam sempre a mesma merda, tem que jogar pelas pontas, correr atrás do prejuízo, onde já se viu. trabalhava tanto pra fugir do prejuízo e vinha uma anta daquelas dizer pra correr atrás. se fosse um desafio ao galo, quem sabe, aquilo sim era divertido. futebol profissional não, era demais, preferia mil vezez voltar pra casa enlameado por causa da chuva no campo de terra batida do que assistir aquele monte de propaganda em tudo quanto é canto, camisa, meião, chuteira, até na luva do goleiro. é claro que quando criança sonhava em jogar nos grandes estádios do mundo, maracanã, pacaembu, quem sabe um san siro ou um camp nou, monumental de nuñez. mas imagina só, dar entrevista pra esses repórteres altamente idiotas, ia acabar passando por antipático. e aguentar jogador estrela então, nem pensar, marmanjo querendo dar uma de madame não era com ele mesmo. aquilo não era mais jogo, era um circo, futebol mesmo estava na várzea, tinha certeza.

é claro que, bem, dentro do time ali também existia uma relação de poder, ele sabia. não era por acaso que o meia-direita habilidoso preferia às vezes não tocar pra ele, mesmo que estivesse livre. sabia que era considerado inferior dentro do jogo, que cobravam mais dele do que confiavam. e aguentava quieto, porque estava feliz em jogar, apesar de incomodado às vezes, não era pra ser assim. será que até aqui aquele bando de propaganda sobe na cabeça da meninada, pensava, devia ser isso, eram todos muito novos e muito enfiados em casa, assistindo aqueles comerciais. mas não era por mal, eram bons meninos, companheiros, mesmo que na hora das faltas cada um deles se sentisse um beckham. beckham, vê se pode, olha quem eles tem como exemplo de batedor de faltas, nunca tinham visto um zico, um rivelino. é, ele também não tinha, mas seu pai sempre contava, e ele escutava, e via os videotapes da copa de 70 como quem assiste a uma obra-prima da humanidade, uma das sete maravilhas do mundo. era aquilo que ele tinha na memória, mesmo que fosse uma memória de algo que ele nunca viveu, pelo menos não presencialmente. uma história que ele escutou e recriou como sendo sua, e quem pode dizer que não era? conhecimento se faz assim, de pai pra filho, de história em história, a tal da sabedoria do povo, não com essa coisa de tira-teima, eu vi, pai, eu vi, dez centímetros impedido, nada disso. imagina se um treco desse mostra que quando o meia-direita devolveu a bola ele estava sete centímetros na frente do último zagueiro? não, aquele gol era dele, só dele e de quem tinha visto, nenhum aparelho eletrônico podia mais tirar, um a zero aos trinta e cinco do segundo tempo, e que golaço. colocou a camisa pra dentro do calção de novo, enxugou o suor da testa, olhou pra arquibancada convencido de que qualquer um dos 150 mil espectadores ausentes teria dito que aquele gol tinha valido o ingresso.

e foi marcar o ponta-esquerda.

Jul. 4th, 2006

10:32 pm - o sequestro de alice

alice havia sumido.

fora deixada no ponto pra pegar o transporte coletivo, e desapareceu. ninguém sabia de seu paradeiro, até porque ninguém sabia pra onde ela estava indo - suspeitavam que ia pra casa. está certo que faziam apenas 2 horas, mas a casa dela era a 30 minutos dali, ora essa! já estavam imaginando o sequestro, sabe como é, cidade é espaço de poder masculino, uma menina sozinha, já de noite, ainda mais ela, toda bonitinha, sempre usando aquele shortinho curto... tá, diziam às vezes que parecia um menino, mas a verdade é que alice era encantadora. tão encantadora que tinha um monte de coelhos tentando levar ela pra toca, cada um com seus relógios e atrasos, e gatos que sumiam e sorriam. vai ver era isso, alice tinha arranjado um coelho, desses bem gatos, mesmo que cheirando a cachorro - porque pra dar em cima de mulher em ponto de ônibus tem que ser cachorro. ai, que remorso, porque tinham largado ela lá sozinha? tudo bem que já faz tempo que ela é crescidinha, mas mesmo assim, nessa cidade não dá pra saber, está tudo errado. o fato é que agora só restava esperar, e ninguém aguenta mais esperar, paciência não é coisa dos nossos tempos, ainda mais quando alguém tá desaparecido.

um dos amigos resolve pegar o carro e procurar por ela, a mãe quer ir junto, o pai não deixa, daqui a pouco ela aparece, deve ter ido comer alguma coisa. o amigo vai do mesmo jeito, a mãe resolve cozinhar pra ocupar as mãos e a cabeça, e disfarçar o choro pondo a culpa na cebola. a notícia do sumiço vai se espalhando pelos conhecidos, a internet ajuda ela a chegar até mesmo em outros estados, e cada vez mais gente se sente impotente frente à situação, e povoa a mente com o discurso pronto do não vai acontecer nada, aquele que sempre empurra as possibilidades desfavoráveis pro fundo. alice é bem grandinha, olhaí, de novo o argumento da maioridade, como se ser adulto impedisse qualquer coisa ruim de acontecer. o amigo volta desconsolado, começa a falar sem parar, antigamente não era assim, o que aconteceu com essa cidade, ninguém pode mais sair sem se preocupar, sem saber se vai voltar ou não, é um absurdo tudo isso. e toca o telefone, é ela, e não é, é só mais alguém que ficou sabendo agora querendo entender o que há, se já apareceu, se é verdade. melhor chamar a polícia, mas eles não fazem nada antes de 24 horas de desaparecimento, ou 48, sei lá, tanto faz, com todo esse tempo ela já foi parar no necrotério. passei por lá hoje, lembra alguém, é estranho, você pensar que quem está ali está por um motivo desses, dali não tem mais volta, é o fim. a atmosfera em volta do necrótério é uma coisa bizarra, parece que o tempo pára, até os carros se esforçam pra não fazer barulho. fizemos de tudo pra tirar a morte de dentro de casa, porque antes cada um era velado em seu quarto, e olha só no que deu, criamos um pedaço sinistro de morbidez estática no meio da paisagem da cidade que não pára, só corre. e mais telefone, e ninguém mais atende com esperanças, todo mundo tão desesperado e falando tão alto que nem percebe a chave girar na fechadura e alice entrar, dizendo oi gente, porque tá todo mundo aqui?

acontece que o ônibus havia demorado e alice resolvera ir a pé, pra tentar lembrar como eram as coisas no caminho até em casa, não tinha nada pra fazer mesmo, e como pode menina, não avisar ninguém, isso não se faz, olha o estado da sua mãe. o alívio toma várias formas, às vezes é choro e às vezes é bronca, abraços e beijos e suspiros. e toca cada um pra sua casa, não sem antes avisar os pais, já estou chegando, ela apareceu.

o que ninguém sabia, só a câmera de vigilância do condomínio, é que ela tinha ido a pé, mesmo, mas não sozinha. as imagens mostravam em detalhe, tal qual tira-teima de jogo de futebol, o último beijo que ela deu no adamastor, que ela tinha conhecido no caminho, um desses cachorros que cantam mulher em ponto de ônibus e que, vez ou outra, acabam conseguindo o que querem - um número de telefone com letra feminina pra mostrar pros amigos.

alice tinha se auto-sequestrado.